Delivery reverso surpreende pela sua obviedade.

10/01

“..E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio!”
– Um índio – Caetano Veloso

O Brasil e o mundo contabilizam números hediondos em relação à fome, uma equação que, apesar dos recursos abundantes globalmente, é sempre difícil de equalizar. Os motivos da incongruência e da crueldade que os números de pessoas famintas no mundo evidenciam passam por questões políticas e econômicas, mas passam também por questões culturais, dentre outras causas.

Segundo o mais recente relatório da fome no mundo, divulgado em setembro de 2017 pela Organização das Nações Unidas (ONU), a humanidade  soma 815 milhões de pessoas que passam fome. Mais da metade, 489 milhões, vivem em condição definida como “insegurança alimentar”. Essa situação revela que a pessoa nunca sabe como e se terá a próxima refeição, ou nem sempre obtém três refeições por dia. O estudo contempla o relatório The State of Food Security and Nutrition in the World 2017 (o estado da segurança alimentar e nutrição no mundo, em tradução livre). O estudo aponta que o aumento desses índices decorre do aumento das áreas de conflito, como as guerras da Síria e da África, por exemplo.

No Brasil, ¼ da população, ou 52 milhões de pessoas estão classificadas nessa margem de “insegurança alimentar”, mesmo sem que haja conflitos ou guerras por aqui.  O número de pessoas que passam fome, efetivamente, é de 3,4 milhões.

Foi pensando na crueldade que é revelada nesses números que a associação civil  Banco de Alimentos teve uma iniciativa pioneira em São Paulo, nos anos 1988, para orquestrar ações que pudessem minimizar esses números. A iniciativa hoje atende a 22 mil pessoas na Capital paulista.

IDEIA BRILHANTE

“Foi no ano passado que uma campanha inédita foi desencadeada na cidade, e cuja estrutura, de tão óbvia, surpreendeu por nunca ter sido enxergada”, diz Daniela Garcia, uma das diretoras da iniciativa.

O delivery reverso consiste em contar com o apoio de restaurantes que façam entregas em domicílio e que estimulem seus clientes a doar um quilo de alimento não perecível ao motoboy que for fazer a entrega do pedido em sua casa. Os restaurantes aderentes se incumbem de armazenar os produtos arrecadados e o Banco de Alimentos, de fazer a coleta nesses restaurantes e entregá-las a instituições ou grupos de pessoas necessitadas.  “Na primeira ação, conseguimos a adesão de cerca de 30 restaurantes e a arrecadação de 100 kg de alimentos nos primeiros 60 dias”, celebra.

Para os donos dos estabelecimentos e para os consumidores desse tipo de serviço, Daniela dá um recado: “ O segmento de restaurantes é corresponsável nessa batalha diária que todas as nações vivem, que é o combate à fome. O aproveitamento dos alimentos de forma respeitosa e consciente, bem como ações que podem preencher alguns elos sociais desta cadeia fragmentada, que é o de levar alimento a todos os lares, são gestos tão simples que às vezes, para quem vive na fartura, nem ocorre adotar. Estamos aqui para chamar a atenção dessas pessoas e do compromisso de todos nós na busca pela erradicação dessa mazela social, que é a fome!”, complementa.

DELIVERY REVERSO

A ação Reverse Delivery da ONG Banco de Alimentos, que incentiva a doação de alimentos sem sair de casa, celebra  novas parcerias após um ano de vigência .  Além dos estabelecimentos que fazem delivery, o sistema conta agora com o aplicativo WABIZ que atende a um grupo de restaurantes conveniados.

A ideia nasceu de uma campanha criada pela agência de publicidade Grey. “Mais de 50 mil pessoas pedem entrega de comida em casa todos os dias, em São Paulo. As motos saem cheias e voltam vazias. Por que não aproveitar esse transporte para incentivar doações e trazer de volta comida para pessoas carentes? Agora, com o aplicativo WABIZ, nossa meta é ampliar muito mais a rede de restaurantes participantes do projeto e de doadores”, explica Luciana Quintão, fundadora da ONG Banco de Alimentos.

A associação civil Banco de Alimentos atua desde 1998 para minimizar os efeitos da fome e combater o desperdício de alimentos, possibilitando a complementação alimentar diária para mais de 22 mil pessoas, entre crianças, jovens, adultos e idosos assistidos por várias instituições. Para isso, o Banco de Alimentos realiza a chamada colheita urbana, por meio da qual alimentos em perfeito estado que seriam descartados como excedentes em estabelecimentos comerciais são coletados e redistribuídos para instituições de caridade.

Se o cliente concordar, o motoboy retira a doação ao entregar o pedido, colocando-a em uma embalagem plástica que, em seguida, é lacrada com uma etiqueta na qual o doador escreve seu nome, telefone e e-mail. Dessa forma, além de garantir a segurança do alimento, o Banco de Alimentos pode agradecer ao doador posteriormente.

A campanha já conta com estabelecimentos parceiros como as três unidades da Pizzaria Veridiana e outros parceiros que podem ser encontrados no site da campanha. A meta agora é ampliar muito mais o número de restaurantes envolvidos. Qualquer estabelecimento de comercialização de alimentos com sistema de delivery que tenha interesse em colaborar com o projeto pode se cadastrar no site da campanha (www.reversedelivery.com.br). As doações são recolhidas pela organização e adicionadas à colheita urbana.

SOBRE A ONG BANCO DE ALIMENTOS

Banco de Alimentos é uma associação civil que atua para minimizar os efeitos da fome e combater o desperdício de alimentos. A organização, pioneira no Brasil no conceito de “colheita urbana”, foi fundada em 1998 pela economista Luciana C. Quintão. De janeiro de 1999 a dezembro de 2016 foram arrecadadas mais de 6 mil toneladas de alimentos, evitando um grande desperdício. Os alimentos distribuídos são excedentes de produção e de comercialização, perfeitos para o consumo.

A distribuição possibilita a complementação alimentar diária para assistidos pelas 43 instituições cadastradas no projeto: mais de 22 mil pessoas, entre crianças, jovens, adultos e idosos. http://www.bancodealimentos.org.br/

Por Sandra de Angelis

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